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Fábrica de
Chá
Gorreana
Estrada Regional (A Gorreana)
9625 Maia
Ilha de S. Miguel
telf e fax: +351 296 442 349
de segunda a Sexta das 8
às 17 horas
Um chá nos Açores
Portugal parece ter
ainda tesouros por descobrir. Um deles, do qual
muitos portugueses nunca ouviram falar, é o Chá Gorreana.
Esta apreciada bebida cultivada cá, mais concretamente na ilha
de S. Miguel, nos Açores, foi durante muitos anos a única
plantação de chá da Europa. Na actualidade, a
fábrica Gorreana continua a produzir, apesar das muitas
dificuldades (sempre ultrapassadas). A história da
introdução do chá em S. Miguel, confunde-se com a
da vida das famílias micaelenses.
Neste momento
é a família Mota e, mais preponderantemente,
Armando Mota, quem impulsiona a plantação. O chá
aparece na ilha pelas mãos de Jacinto Leite (micaelense) por
volta de 1820, que traz as sementes do Brasil. O seu cultivo foi depois
incentivado pela Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, que,
como resposta à crise da laranja (em meados do século
passado), mandou vir em 1878, dois chineses para S.Miguel. Estes
trouxeram mais semente para a plantação e ensinaram as
complexas tarefas da sua preparação.
A
plantação da Gorreana inicia a
sua produção em 1874 e, em 1883, consegue o
primeiro quilo de chá seco. Assim surge o chá Gorreana,
pelas mãos de Hermelinda Pacheco Gago da Câmara. E apesar
dos filhos que teve, o Gorrreana acaba por ficar para a sua neta
Angelina. É ela que vem a casar com Jaime Hintze (s sua
família, de origem alemã, veio para Portugal no
século XVIII) que se entregou à plantação e
proporcionou o seu crescimento. Jaime construiu ainda a Central
hidroeléctrica; se não fosse esta medida, talvez o
Gorreana não tivesse sobrevivido.
As outras
plantações e fábricas
não tinham este recurso, ficando apenas com a máquina a
vapor. Isto tornou-se limitativo, tanto no preço da energia,
como no recurso à mecanização, dado que só
em meados dos anos sessenta houve distribuição de energia
elétrica nas aldeias. Além disso, Jaime foi o primeiro
fabricante Açoriano a conseguir a marca registada em pacotes.
O filho de
Jaime e Argelina, Fernando, casa com
Berta Ferreira Meireles. E continua a obra do pai, comprando grande
parte das máquinas que, estão ainda em funcionamento. Mas
vai mais mais longe e constrói uma central
termoeléctrica, uma alternativa à hidroeléctrica.
Fernando morre muito novo, deixando apenas uma filha, Margarida Hintze.
Em 1966, Margarida casa com Hermano Mota.
O actual impulsionador
do Gorreana, de 59 anos, já tinha estado ligado a esta planta, a
sua família produzia o Chá Corte Real. Mas era apenas uma
plantação e o seu pai pagava às fábricas a
sua utilização. Quando todas fecharam, porque a
produção de leite era mais fácil (devido à
falta de electricidade), o Chá Corte Real acabou.

Toneladas e toneladas de chá.
O chá
teve produções significativas
nas primeiras décadas deste século. Na ordem das 700
toneladas por ano. No entanto, as restrições às
trocas com o exterior, durante as duas grandes guerras, fizeram com que
houvesse um maior investimento noutras culturas mais necessárias
à subsistência . E o declínio da
produção de chá foi inevitável. Dos anos 80
até há bem pouco tempo, a Gorreana era a única
fábrica de chá da Europa. Mas em tempos houve cerca de 15
em S. Miguel.
Até 1976,
vendia cerca de 80 toneladas ao
Continente, mas um dia a casa que fazia a distribuição
fechou e o Gorreana saíu do mercado. A fábrica já
passou por diversas dificuldades, a mais recente foi quando apareceram
as grandes superfícies, há cerca de dez anos. “Nos
primeiros dois anos, prejudicaram bastante, a venda baixou quase 43%.
Houve uma mudança de hábitos, as pessoas foram aliciadas
por outros produtos, por outras bebidas, mais do que por outros
chás. Com o tempo, a euforia parece ter passado e voltam agora
ao chá. Conseguimos atingir os valores que tínhamos antes
de aparecerem as grandes superfícies. E vendemos também
para os hipermercados, mas mantém-se a nossa presença no
mercado tradicional.”

Entretanto
há cerca de um ano,
surgiu a concorrência. Mas Hermano Mota não notou qualquer
diferença nas vendas, “até é capaz de ajudar,
visto que se fala mais no chá dos Açores,” Outro grande
impulso tem sido o contacto directo dos clientes com a fábrica:
“se não fossem as visitas à fábrica e o aumento
considerável de turismo, julgo que já não haveria
chá nos Açores. É mais uma venda. As pessoas
passam a conhecer e o “passa-palavra” tem sido muito importante”. A
venda directa na fábrica representa 5% das totais.
A
plantação tem 32
hectares e, actualmente, a produção anda à volta
das 33 toneladas por ano (mas tem capacidade para 40). Este ano o
objectivo é chegar às 35. A maior fatia da
produção destina-se ao consumo da Região, mas
há ainda uma parcela de duas toneladas para o Continente, quatro
para a Alemanha (o país da Europa onde o consumo de chá
tem aumentado mais per capita), cerca de para os EUA e Canadá, e
ainda perto de seiscentos quilos para a Áustria.
É preciso ter em conta que para os EUA
e para o Canadá vai muito mais chá, que é levado
pelos micaelenses, depois de passarem as suas férias na terra
natal. O clima dos Açores ajuda a planta do chá –
Camellia sinensis – porque lhe dá a água que ela precisa.
“Temos chuvas bem distribuídas ao longo do ano. O chá
precisa de pelo menos, 30 milímetros de água por
mês. Felizmente não temos geadas, que queimam as folhas e
o sol não é demasiado intenso, há sempre umas
nuvens”, explica o proprietário.

Além
disso, o solo argiloso e
ácido dá origem a um chá muito perfumado e
de travo agradável. O Chá Gorreana é ainda
apreciado por ser um produto ecológico, livre de pesticidas,
herbicidas e fungicidas.
Nos
países onde há a
estação das chuvas, há mosquitos e a mosca do
chá, que picam ou mordem o gomo terminal e a folha não se
desenvolve. Daí que têm de fazer aplicações
de insecticidas. Por outro lado, nos países da
estação seca, há o aranhiço vermelho, que
também tem de ser combatido com insecticidas. E às vezes
ainda precisam de usar fungicidas. Nós não temos nem a
estação seca nem a da chuva” explica Hermano Mota.
O
chá é produzido pelo
método Hysson (através de vapor) e é um chá
“ortodoxo” ou “tradicional” - as folhas são enroladas e,
depois de secas, a maioria está inteira. Segundo o
proprietário, o chá tem “ um paladar mito
agradável e um aroma mais forte do que a generalidade dos
chás comercializados” Da fábrica sai o tradicional
chá preto, o muito em voga chá verde e ainda, por
encomenda, o semifermentado (soochong, oolong e poochong).
Dentro
do chá preto há
três variedades: o Orange Pekoe (feito do gomo terminal e a
primeira folha), o Pekoe (da segunda folha) e o Broken Leaf (da
terceira que é mais rija porque não enrolou).
Dentro do verde, para além do mais comum, fazemos o
chá pérola, muito semelhante ao Gun Powder
(chinês), em que as folhas estão mais tempo no vapor e o
enrolador enrola por si.
Um
fenómeno curioso que Hermano Mota relata
é a procura desenfreada pelo chá verde. Actualmente, a
Gorreana já produz 12 toneladas por ano desta variedade.
Até há cinco anos só eram feitos à volta de
700 kilos e apenas para consumo nas ilhas. Antigamente na Europa,
praticamente só se bebia chá verde. Mas depois da II
Grande Guerra, a imprensa divulgou alguns perigos do chá verde,
porque era feito em máquinas de cobre.
E o
chá preto veio substituí-lo.
Recentemente começaram a aparecer os estudos que provam que os
antioxidantes (presentes no chá) ajudam a prevenir o cancro.
Hoje em dia, os cilindros onde se aquecem as folhas do chá com o
vapor de água são de madeira.

Hermano
Mota, o especialista, revelou qual o
chá que escolhe para cada ocasião: “quando bebo o
chá das cinco gosto do Orange Pekoe. Para pequeno-almoço
e para acompanhar uma refeição (com os carapaus fritos,
que é um prato muito típico cá em casa) prefiro o
Pekoe. A seguir a uma grande festança e a uma comida farta,
gosto do verde, que é muito digestivo”.
Este
é, sem dúvida, um
negócio de família, visto que conta com a ajuda de todos.
Aos fins-de-semana, por exemplo, a tarefa de receber as visitas
turísticas é repartida por todos. E a
continuação do chá Gorreana parece já estar
assegurada. Dos cinco filhos que tiveram, já dois se
interessaram pela plantação. André, 32 anos, e
Tiago, 24, são os entusiastas. O Tiago ainda estuda, mas
dedica-se muito à fábrica. O André ocupa-se mais
da exploração leiteira. Assim, garantem a
continuação do tradicional chá dos Açores.
O chá das cinco.
Segundo uma lenda
chinesa, o chá foi descoberto pelo imperador
Shen-Nung por volta do ano 2737 a.C. No continente europeu a
introdução do chá é claramente
atribuída aos portugueses, em 1560, através das trocas
comerciais que mantinham com Macau. E foi daqui que surgiu para outros
países da Europa levado pela Companhia Holandesa das
Índias Orientais. Também a Grã-Bretanha se tornou
um país de enorme consumo através da influencia
portuguesa. Foi a princesa Catarina de Bragança, mulher do rei
D. Carlos II, uma grande apreciadora do chá, que, em 1662, o
difundiu na corte inglesa. É ainda em terras que surge o
hábito de beber o “chá das cinco”, impulsionado pela
duquesa de Bedford, para eliminar uma sensação de
fraqueza.
RSP- in Revista da
Unicre Maio de 2002
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